História

Copa de 1970: a seleção mais bonita da história do futebol

Conheça a história da Seleção Brasileira de 1970 no México, o time que conquistou o tricampeonato com futebol arte inesquecível.

Pedro Almeida 6 min de leitura
Ilustração editorial sobre futebol brasileiro
Ilustração: Brasil Copa do Mundo

Existe um consenso quase universal no futebol: se algum time merece ser chamado de o mais bonito de todos os tempos, esse time é a Seleção Brasileira de 1970. Na Copa do Mundo disputada no México, aquele grupo de jogadores extraordinários não apenas conquistou o tricampeonato mundial, mas redefiniu os limites do que era possível fazer com uma bola nos pés. Seis jogos, seis vitórias, 19 gols marcados e um futebol que até hoje serve de referência para qualquer discussão sobre a essência do esporte.

O caminho até o México: superando turbulências

O período que antecedeu a Copa de 1970 foi tudo menos tranquilo para a Seleção Brasileira. Após a decepcionante eliminação na fase de grupos da Copa de 1966 na Inglaterra — onde o Brasil, então bicampeão, foi humilhado por Hungria e Portugal —, o futebol brasileiro entrou em crise existencial. A discussão sobre o estilo de jogo dominou os debates: deveria o Brasil adotar o futebol físico europeu ou manter sua tradição de criatividade e técnica?

A resposta veio com a nomeação de João Saldanha como técnico, um jornalista e ex-treinador de personalidade forte que montou um time ofensivo durante as Eliminatórias. Saldanha classificou o Brasil com campanha perfeita, mas suas desavenças com a CBD (atual CBF) e com o regime militar levaram à sua demissão poucos meses antes do Mundial. Em seu lugar, entrou Mário Jorge Lobo Zagallo, que havia sido campeão como jogador em 1958 e 1962.

Zagallo herdou um elenco absurdamente talentoso e teve a sabedoria de não tentar reinventar a roda. Manteve a base ofensiva de Saldanha, fez ajustes táticos pontuais e criou um ambiente de harmonia que permitiu que gênios coexistissem em campo sem conflitos de ego.

O quinteto mágico: Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson e Rivelino

A linha ofensiva da Seleção de 1970 é, até hoje, a mais talentosa já reunida em uma mesma equipe. Cada um dos cinco titulares do ataque seria estrela absoluta em qualquer outro time do mundo; juntos, formavam algo próximo da perfeição.

Pelé, aos 29 anos, vivia a plenitude de sua genialidade. Mais maduro e completo do que nas Copas anteriores, o Rei não era apenas um finalizador letal — era o cérebro criativo do time, capaz de lances que desafiavam a imaginação. Sua quase-gol contra o Uruguai na semifinal, quando fingiu ir buscar a bola e a deixou passar para buscá-la do outro lado do goleiro, permanece como um dos momentos mais audaciosos da história do esporte.

Jairzinho, o Furacão da Copa, estabeleceu um recorde que resiste ao tempo: marcou gol em todos os seis jogos do torneio. Sua potência física, combinada com velocidade e habilidade no drible, fazia dele uma arma letal pela ponta direita. Tostão, vindo de uma cirurgia delicada nos olhos que quase encerrou sua carreira, jogava como centroavante de movimentação, recuando para armar as jogadas e abrindo espaços para os companheiros com inteligência rara.

Gérson, o Canhotinha de Ouro, era o maestro do meio-campo. Seus lançamentos longos e precisos cortavam linhas inteiras de marcação, e seu chute de longa distância era uma ameaça constante. Rivelino completava o quinteto com sua canhota poderosa, seus dribles elegantes e uma versatilidade que permitia a Zagallo ajustar a equipe conforme a necessidade de cada jogo.

A campanha perfeita: jogo a jogo

A estreia contra a Tchecoslováquia, em Guadalajara, já deu o tom: vitória por 4 a 1, com gols de Rivelino, Pelé, Jairzinho e Jairzinho novamente. O segundo jogo, contra a Inglaterra, foi o mais disputado da fase de grupos. A defesa de Gordon Banks em cabeçada de Pelé — considerada a maior defesa da história das Copas — é um lance imortal. Mesmo assim, Jairzinho fez o único gol da vitória por 1 a 0.

Contra a Romênia, outra goleada: 3 a 2, com dois gols de Pelé, incluindo um de falta magistral. Nas quartas de final, o Peru foi superado por 4 a 2 em uma partida de futebol ofensivo de tirar o fôlego. A semifinal contra o Uruguai, carregada de simbolismo pelo Maracanazo de 1950, foi vencida por 3 a 1, com Jairzinho, Rivelino e Pelé marcando os gols.

A final contra a Itália: o jogo perfeito

No dia 21 de junho de 1970, no Estádio Azteca, diante de mais de 107 mil espectadores, Brasil e Itália decidiram a Copa do Mundo. A Itália, liderada por Gianni Rivera e Luigi Riva, era uma seleção fortíssima que havia eliminado a Alemanha Ocidental em uma semifinal épica decidida por 4 a 3 na prorrogação.

Mas nada poderia parar aquele Brasil. Pelé abriu o placar de cabeça, com um salto impressionante. Roberto Boninsegna empatou para a Itália, mas o Brasil retomou o controle total do jogo no segundo tempo. Gérson marcou com um chute de canhota de fora da área que entrou no ângulo. Jairzinho fez o terceiro, mantendo seu recorde de gols em todos os jogos. E então veio o lance que eternizou aquela seleção.

Carlos Alberto Torres, o capitão que havia subido do fundo do campo, recebeu um passe milimétrico de Pelé após uma jogada coletiva envolvendo praticamente todo o time e finalizou com um chute fulminante no canto direito do goleiro italiano. Foi o gol que coroou a maior campanha da história das Copas do Mundo e que resume, em poucos segundos, tudo o que aquela equipe representava: coletividade, talento, ousadia e beleza.

O legado tático de Zagallo

Além da genialidade individual, a Seleção de 1970 trouxe inovações táticas que influenciaram o futebol mundial. Zagallo implementou um sistema flexível que transitava entre o 4-2-4 e o 4-3-3, dependendo do momento do jogo. Rivelino, nominalmente um ponta-esquerda, recuava para compor o meio-campo na fase defensiva, criando uma superioridade numérica que antecipou o conceito moderno de “falso ponta”.

A movimentação sem bola era outro diferencial. Tostão, como centroavante, abria espaços que eram ocupados por Pelé, Jairzinho ou até pelos laterais. Essa fluidez posicional confundia as defesas adversárias e criava situações de superioridade numérica constantes no ataque.

A conquista definitiva da Taça Jules Rimet

Com o tricampeonato, o Brasil conquistou em definitivo a Taça Jules Rimet, conforme as regras que estipulavam que o primeiro país a vencer três vezes ficaria com o troféu permanentemente. A taça, feita de ouro maciço, foi trazida ao Brasil e exposta na sede da CBF — até ser roubada em 1983, em um crime que nunca foi totalmente solucionado.

O legado daquela seleção vai muito além de troféus. A Seleção de 1970 estabeleceu o padrão pelo qual todas as equipes brasileiras subsequentes seriam julgadas. Cada vez que a Seleção entra em campo, carrega consigo a expectativa de recriar a magia daquele time.

Nos bastidores do futebol mundial, treinadores e analistas continuam estudando aquela equipe. A verdade é que a Seleção de 1970 não pertence apenas ao Brasil — pertence ao futebol universal, a prova definitiva de que beleza e eficiência podem coexistir.

Para os torcedores que acompanham a preparação para a Copa de 2026, a memória de 1970 serve tanto como inspiração quanto como lembrete: o futebol brasileiro, em seu melhor, é capaz de maravilhar o mundo. A seleção feminina também carrega esse DNA, provando que a herança de 1970 transcende gerações e gêneros.