Tática

A importância do camisa 9: o centroavante na Seleção Brasileira de Dorival

Análise do papel do centroavante na Seleção Brasileira de Dorival Júnior, a disputa de Endrick pela camisa 9 e o debate sobre o falso 9.

Rafael Santos 6 min de leitura
Ilustração editorial sobre futebol brasileiro
Ilustração: Brasil Copa do Mundo

O futebol brasileiro sempre foi terra de centroavantes lendários. De Leônidas da Silva a Ronaldo Fenômeno, passando por Tostão, Careca e Romário, a camisa 9 da Seleção Brasileira carrega um peso histórico que transcende o campo de jogo. Na preparação para a Copa do Mundo de 2026, o debate sobre quem deve ocupar essa posição e, mais importante, como ela deve ser interpretada taticamente, é um dos temas centrais do trabalho de Dorival Júnior.

A herança dos grandes centroavantes brasileiros

Para compreender a importância do camisa 9 no Brasil, é preciso olhar para trás. Nas cinco conquistas mundiais da história da Seleção, o centroavante sempre exerceu papel decisivo. Em 1958 e 1962, Vavá foi o homem de área que transformava jogadas coletivas em gols. Em 1970, Tostão desempenhou uma função híbrida que antecipou o conceito de falso 9 em décadas, recuando para construir e liberando espaços para Pelé e Jairzinho. Romário, em 1994, foi letal dentro da pequena área, convertendo oportunidades com uma frieza cirúrgica que poucos atacantes na história conseguiram replicar.

O ápice dessa linhagem foi Ronaldo. Nos dados compilados pela FIFA, o Fenômeno é o segundo maior artilheiro da história das Copas do Mundo, com quinze gols em quatro edições do torneio. Sua combinação de velocidade, técnica, força física e instinto goleador redefiniu o que se esperava de um centroavante moderno. Na Copa de 2002, Ronaldo marcou oito gols e conduziu o Brasil ao pentacampeonato com atuações que permanecem na memória coletiva do futebol mundial.

Essa tradição cria uma expectativa enorme sobre quem veste a camisa 9 da Seleção. Não basta ser um bom atacante: é preciso carregar o peso simbólico de uma posição que representa a essência do futebol ofensivo brasileiro.

Endrick: juventude, talento e responsabilidade

Endrick Felipe chegou ao Real Madrid com apenas 18 anos e rapidamente demonstrou que possuía atributos para justificar toda a expectativa criada ao seu redor. Forte fisicamente para sua idade, com finalização poderosa com ambos os pés e um instinto de gol que não se ensina, o jovem atacante é o candidato natural à titularidade na posição de centroavante da Seleção para a Copa de 2026.

No entanto, a juventude de Endrick traz consigo desafios que não podem ser ignorados. A adaptação ao futebol europeu exigiu paciência, e as oportunidades como titular no Real Madrid foram administradas com cautela por Carlo Ancelotti e seus sucessores. Na Seleção Brasileira, Dorival Júnior tem utilizado Endrick em doses controladas, alternando entre titularidade e entradas no segundo tempo, buscando construir a confiança do jogador sem sobrecarregá-lo com pressão excessiva.

Os números de Endrick nas Eliminatórias Sul-Americanas são promissores. Sua média de finalizações por partida e seu posicionamento dentro da área demonstram que ele compreende a função clássica do centroavante: estar no lugar certo na hora certa. Conforme dados do Transfermarkt, Endrick apresenta um dos maiores índices de Expected Goals entre os atacantes brasileiros em atividade, o que sugere que, com maior regularidade, os gols virão de forma natural.

O debate do falso 9: modernidade versus tradição

Paralelamente à aposta em Endrick, existe um debate tático legítimo sobre a utilização do falso 9 na Seleção Brasileira. O conceito, popularizado por Pep Guardiola com Lionel Messi no Barcelona a partir de 2009, prevê um atacante que recua para o meio-campo para criar superioridade numérica na construção, arrastando zagueiros para fora de suas posições e abrindo espaços para infiltrações dos meias e pontas.

No elenco brasileiro, jogadores como Rodrygo e até Vinicius Jr possuem características para desempenhar essa função em determinados contextos. A mobilidade de Rodrygo, sua capacidade de se associar em espaços curtos e sua inteligência para encontrar posições entre as linhas adversárias fazem dele um candidato natural quando o plano de jogo exigir um ataque mais fluido e sem referência fixa na área.

No entanto, a adoção permanente do falso 9 traz riscos. Sem um centroavante de área, a Seleção perde referência para cruzamentos, presença nos duelos aéreos em jogadas de bola parada e a ameaça constante de profundidade que obriga os zagueiros adversários a se preocuparem com o espaço às suas costas. Como apontam análises táticas publicadas pela CONMEBOL, seleções que jogaram sem um centroavante fixo nas últimas edições de Copa do Mundo tiveram dificuldade em converter domínio territorial em gols efetivos.

A solução de Dorival: flexibilidade como princípio

A resposta de Dorival Júnior para esse dilema parece ser a flexibilidade. Em vez de se comprometer com uma única solução para a posição de centroavante, o treinador tem demonstrado disposição para variar conforme o adversário e o contexto de cada partida. Contra equipes que se fecham atrás com linhas baixas, o falso 9 pode ser a chave para destravar defesas compactas. Contra rivais que propõem jogo aberto e deixam espaços nas costas, um centroavante clássico como Endrick, capaz de atacar a profundidade com velocidade, se torna a arma ideal.

Essa abordagem tática se alinha com a filosofia que Dorival tem implementado desde sua chegada à Seleção. Nos bastidores da preparação, a comissão técnica trabalha com cenários distintos para cada adversário potencial na Copa, preparando o elenco para executar diferentes planos de jogo sem perder a identidade coletiva. A versatilidade dos jogadores brasileiros no setor ofensivo permite que essas mudanças ocorram até mesmo durante as partidas, com ajustes que transformam o sistema sem necessidade de substituições.

O peso da camisa 9 na Copa de 2026

A Copa do Mundo de 2026 terá um formato inédito, com 48 seleções e um calendário mais extenso. Isso significa que o Brasil pode precisar disputar até sete partidas para chegar à final, o que torna a gestão do elenco e a rotação de jogadores ainda mais importante. Ter opções distintas para a posição de centroavante — Endrick como referência clássica, Rodrygo como falso 9, e outros nomes que possam ser utilizados em situações específicas — é uma vantagem competitiva significativa.

A história do futebol brasileiro ensina que os grandes títulos foram conquistados por equipes que tinham clareza sobre a função do seu centroavante. Seja o oportunismo mortal de Romário, a força bruta e técnica de Ronaldo, ou a inteligência posicional de Tostão, cada camisa 9 campeão do mundo trouxe algo único para a equipe.

A análise tática contemporânea, corroborada por dados da CBF, sugere que o futebol moderno exige centroavantes cada vez mais completos, capazes de participar do jogo combinado, pressionar a saída de bola adversária e, ao mesmo tempo, manter a letalidade na área. Endrick tem o perfil para se encaixar nessa descrição, mas precisará do suporte tático e emocional da comissão técnica e dos companheiros para entregar seu melhor futebol no maior palco do mundo.

A definição do camisa 9 titular para a Copa de 2026 é mais do que uma escolha tática: é uma declaração sobre o tipo de futebol que o Brasil quer praticar. A Seleção Feminina já demonstrou nos últimos ciclos que a versatilidade ofensiva é um trunfo em competições de alto nível. No masculino, cabe a Dorival Júnior encontrar o equilíbrio entre a tradição do centroavante brasileiro e as exigências do jogo moderno, honrando o legado de quem vestiu a camisa 9 antes e preparando o caminho para que a próxima geração escreva sua própria história.