Seleção Feminina

Marta: o legado eterno da rainha do futebol feminino brasileiro

A trajetória completa de Marta, seis vezes melhor do mundo, seus recordes, conquistas e o impacto transformador no futebol feminino do Brasil.

Pedro Almeida 6 min de leitura
Ilustração editorial sobre futebol brasileiro
Ilustração: Brasil Copa do Mundo

Existem jogadores que transcendem o esporte. Que ultrapassam as fronteiras do campo, das estatísticas e dos troféus para se tornarem símbolos de algo maior. Marta Vieira da Silva é, indiscutivelmente, uma dessas figuras. Nascida em Dois Riachos, Alagoas, em 19 de fevereiro de 1986, a menina que cresceu jogando bola em campos de terra do sertão nordestino se transformou na maior jogadora de futebol de todos os tempos e em uma das vozes mais poderosas na luta por igualdade no esporte mundial.

De Dois Riachos para o mundo

A infância de Marta no interior de Alagoas foi marcada por dificuldades financeiras e pelo preconceito contra meninas que ousavam jogar futebol. Em uma época em que o futebol feminino ainda era amplamente marginalizado no Brasil, a jovem alagoana encontrava nos campinhos de várzea o único espaço para exercitar um talento que logo se revelaria extraordinário. Aos 14 anos, Marta mudou-se para o Rio de Janeiro para integrar o Vasco da Gama, dando o primeiro passo de uma carreira que redefiniria os limites do futebol feminino.

A passagem pelo Vasco e posteriormente pelo Santa Cruz foi breve, mas suficiente para chamar a atenção dos observadores. Em 2004, aos 18 anos, Marta transferiu-se para o Umeå IK, da Suécia, onde sua carreira ganhou projeção internacional. No futebol sueco, encontrou a estrutura profissional que o Brasil ainda não oferecia e respondeu com atuações memoráveis que a alçaram ao topo do futebol mundial.

Seis vezes a melhor do mundo

O prêmio de Melhor Jogadora do Mundo da FIFA tornou-se quase sinônimo de Marta. Ela conquistou o troféu em 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e 2018, uma sequência de reconhecimentos que não encontra paralelo na história do futebol, masculino ou feminino. Para efeito de comparação, Lionel Messi, o jogador mais premiado do futebol masculino, conquistou o prêmio equivalente em oito ocasiões, porém com um nível de investimento, estrutura e visibilidade incomparavelmente superior.

O que torna as conquistas individuais de Marta ainda mais impressionantes é o contexto em que foram alcançadas. Enquanto representava a Seleção Feminina, Marta frequentemente carregava o time nas costas, sendo ao mesmo tempo a principal criadora de jogadas e a finalizadora decisiva. Sua capacidade de desequilibrar partidas sozinha, com dribles desconcertantes, passes de genialidade e gols espetaculares, a tornou a atração principal em qualquer competição de que participasse.

Recordes que falam por si

Os números da carreira de Marta são eloquentes. Na Seleção Brasileira, ela se tornou a maior artilheira da história, ultrapassando marcas que pareciam inalcançáveis. Em Copas do Mundo Femininas, Marta detém o recorde de gols, superando inclusive marcas de jogadores homens em edições do torneio masculino. Segundo dados compilados pela Wikipedia, sua contagem de gols internacionais ultrapassa a marca de 100, um feito monumental considerando a irregularidade de calendário e as condições enfrentadas ao longo de sua carreira.

Além dos gols, Marta acumulou participações em múltiplas edições de Copas do Mundo e Jogos Olímpicos, sendo presença constante nos maiores palcos do futebol internacional por mais de duas décadas. Sua longevidade esportiva é, por si só, um testemunho de dedicação, profissionalismo e amor pelo jogo que poucas atletas em qualquer modalidade conseguiram igualar.

A parceria com Formiga e Cristiane

A grandeza de Marta na Seleção Brasileira foi potencializada pela presença de companheiras igualmente extraordinárias. Formiga, a incansável meio-campista que disputou sete edições de Copas do Mundo e sete Olimpíadas, foi durante anos o motor do meio-campo brasileiro, oferecendo equilíbrio e distribuição de jogo que permitiam a Marta atuar com maior liberdade ofensiva. A longevidade de Formiga no futebol internacional é um recorde em si mesma, representando uma carreira de dedicação que complementou perfeitamente o brilho de Marta.

Cristiane, por sua vez, formou ao lado de Marta uma das duplas de ataque mais temidas do futebol feminino mundial. Artilheira nata, Cristiane contribuiu com gols decisivos em Copas do Mundo e Olimpíadas, dividindo a responsabilidade ofensiva e criando espaços que beneficiavam toda a equipe. A história dessas três jogadoras está entrelaçada com os maiores momentos da Seleção Feminina e representa uma geração dourada que elevou o patamar do futebol feminino brasileiro.

O impacto além do campo

O legado de Marta transcende as quatro linhas. Sua voz se tornou uma das mais influentes na luta por igualdade de gênero no esporte. O discurso emocionado após a eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2019, na França, quando Marta pediu às meninas que “chorassem no começo para sorrir no final” e que valorizassem o futebol feminino, viralizou globalmente e se tornou um manifesto pela causa.

Fora dos gramados, Marta utiliza sua plataforma para promover iniciativas de inclusão social e desenvolvimento do esporte entre meninas de comunidades carentes. Sua parceria com organizações internacionais ligadas à ONU reforça o papel do esporte como ferramenta de transformação social. Em um país onde o futebol é a principal expressão cultural, o exemplo de Marta inspira milhões de meninas a acreditarem que o campo é, sim, lugar delas.

A relação de Marta com a Seleção Brasileira sempre foi marcada por uma dualidade: de um lado, o orgulho imenso de vestir a camisa amarela; de outro, a frustração com a falta de estrutura e investimento que impediu que seu talento fosse recompensado com títulos de expressão pela equipe nacional. Essa tensão é parte integral de sua história e reflete os desafios sistêmicos que o futebol feminino enfrenta no Brasil.

O legado para a nova geração

Com o avanço da idade e a aproximação do fim de sua carreira como jogadora, a pergunta inevitável se impõe: o que será do futebol feminino brasileiro pós-Marta? A resposta passa pela nova geração de jogadoras que cresce inspirada por seu exemplo e que tem a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho de décadas. O processo de renovação da Seleção, conduzido nos bastidores da CBF, busca construir uma equipe competitiva que não dependa de uma única jogadora, mas que preserve a identidade ofensiva que Marta personificou.

As Eliminatórias e torneios preparatórios servem como laboratório para essa transição, permitindo que jovens talentos ganhem experiência internacional ao lado de veteranas que ainda contribuem com sua vivência. A abordagem tática da equipe vem sendo modernizada, incorporando conceitos de jogo posicional e pressing que são tendência no futebol feminino global.

Marta é eterna

Quando os livros de história do futebol forem escritos em sua versão definitiva, Marta ocupará um capítulo inteiro. Não apenas pelos gols, pelos dribles e pelos prêmios, mas por ter sido a pessoa que mais fez pelo reconhecimento do futebol feminino como espetáculo legítimo e merecedor de respeito. Segundo informações da CBF, Marta é a atleta com mais convocações na história da Seleção Feminina, um número que traduz em partidas a devoção de uma vida inteira ao futebol.

A Copa do Mundo de 2026, embora seja um torneio masculino, carrega consigo a esperança de que o futebol como um todo continue evoluindo em direção à igualdade. E nesse caminho, o nome de Marta será sempre lembrado como o de quem abriu as portas para que milhões de mulheres pudessem sonhar mais alto. Marta não é apenas a rainha do futebol feminino brasileiro. Marta é a prova viva de que o talento não tem gênero, e de que a grandeza verdadeira se mede não apenas em títulos, mas no legado que se deixa para os que vêm depois.