Copa 2002: Ronaldo, redenção e o pentacampeonato no Japão
A história da Copa de 2002, a redenção de Ronaldo Fenômeno e a campanha perfeita do Brasil rumo ao pentacampeonato mundial.
A Copa do Mundo de 2002, a primeira realizada na Ásia e a primeira co-sediada por dois países — Japão e Coreia do Sul —, ficou marcada por uma das narrativas mais poderosas da história do esporte. No centro dessa história estava Ronaldo Luís Nazário de Lima, o Fenômeno, um jogador que quatro anos antes havia vivido o episódio mais traumático de sua carreira e que agora retornava ao palco mundial em busca de redenção. O resultado foi uma campanha perfeita — sete jogos, sete vitórias — e a conquista do pentacampeonato, feito que consolidou o Brasil como o maior vencedor da história das Copas.
O fantasma de 1998 e a travessia de Ronaldo
Para entender a dimensão do que aconteceu em 2002, é preciso voltar a 12 de julho de 1998, em Paris. Naquela noite, Ronaldo, então considerado o melhor jogador do mundo, sofreu uma convulsão horas antes da final contra a França. A confusão que se seguiu — ele foi inicialmente retirado da escalação, depois recolocado às pressas — resultou em uma atuação apagada e numa derrota por 3 a 0 que assombrou o futebol brasileiro. O episódio nunca foi completamente explicado, e as teorias sobre o que realmente aconteceu nos bastidores daquela final alimentam debates até hoje.
Após 1998, Ronaldo enfrentou duas graves lesões nos joelhos que o afastaram dos gramados por longos períodos. A ruptura do tendão patelar do joelho direito, em abril de 2000, e uma recidiva durante sua tentativa de retorno foram golpes que teriam encerrado a carreira de qualquer outro atleta. Mas a determinação de Ronaldo em voltar ao mais alto nível era alimentada por um objetivo claro: a Copa de 2002.
Felipão assume o comando
A Seleção Brasileira chegou às Eliminatórias sul-americanas para a Copa de 2002 em situação delicada. Após uma sequência de resultados ruins sob o comando de Wanderley Luxemburgo e Emerson Leão, o Brasil corria risco real de não se classificar — algo impensável para o maior campeão mundial. Foi nesse contexto de crise que Luiz Felipe Scolari, o Felipão, assumiu o comando da seleção em junho de 2001.
Felipão trouxe consigo um estilo pragmático e uma personalidade forte. Gaúcho de Passo Fundo, com passagens vitoriosas por Grêmio e Palmeiras, ele possuía algo que a Seleção precisava desesperadamente: capacidade de liderança e organização. Sob seu comando, o Brasil garantiu a classificação e chegou à Copa com um grupo coeso e motivado.
Uma de suas decisões mais ousadas foi a convocação de Ronaldo, que havia disputado apenas uma temporada completa após suas lesões. A aposta em um jogador cuja condição física era questionada por muitos gerou críticas, mas Felipão confiava no que havia visto nos treinos: o Fenômeno estava de volta.
Os três “R”: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho
O Brasil de 2002 não era uma equipe de um homem só. A base tática montada por Felipão equilibrava uma defesa sólida, organizada por Lúcio e Edmílson, com um trio ofensivo devastador: Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho.
Rivaldo, aos 30 anos, era o jogador mais experiente e consistente dos três. Melhor do mundo em 1999, o baiano trazia inteligência posicional, finalização poderosa com a canhota e uma capacidade de decisão em momentos cruciais. Ronaldinho, por sua vez, era o mais jovem e imprevisível. Com apenas 22 anos, o gaúcho já demonstrava o repertório de dribles e passes geniais que o consagraria nos anos seguintes no Barcelona.
A combinação dos três “R” criava problemas insolúveis para as defesas adversárias. Enquanto Ronaldo fixava os zagueiros centrais com sua movimentação e presença na área, Rivaldo e Ronaldinho tinham liberdade para flutuar e criar jogadas. Era um tridente ofensivo que aterrorizava qualquer adversário.
A campanha perfeita: rumo ao penta
O Brasil estreou no Grupo C com uma vitória por 2 a 1 sobre a Turquia, em Ulsan. Ronaldo marcou um dos gols, sinalizando que estava pronto para a competição. Na segunda rodada, goleada de 4 a 0 sobre a China, com Rivaldo e Ronaldinho brilhando. O empate por 2 a 2 com a Costa Rica encerrou a fase de grupos com classificação garantida.
Nas oitavas de final, o adversário era a Bélgica, e o Brasil venceu por 2 a 0 com gols de Rivaldo e Ronaldo. A partida contra a Inglaterra, nas quartas de final, foi a mais emblemática da campanha. Ronaldinho protagonizou dois momentos inesquecíveis: primeiro, cobrou uma falta que, intencionalmente ou não, encobriu o goleiro David Seaman e entrou no gol; depois, foi expulso com cartão vermelho por uma entrada dura em Danny Mills. O Brasil segurou a vantagem com dez jogadores e avançou com uma vitória por 2 a 1.
A semifinal contra a Turquia, em Saitama, foi decidida por 1 a 0 com gol de Ronaldo. A classificação para a final estava garantida, e o adversário seria a Alemanha, que havia eliminado a Coreia do Sul em sua semifinal. O palco estava montado para o capítulo final da redenção.
A final em Yokohama: lágrimas de um Fenômeno
No dia 30 de junho de 2002, no International Stadium de Yokohama, diante de quase 70 mil espectadores, Brasil e Alemanha decidiram a Copa do Mundo. A Alemanha de Oliver Kahn, eleito o melhor goleiro do torneio e favorito ao prêmio de melhor jogador, chegava à final invicta e com uma defesa sólida. Kahn havia sido praticamente imbatível ao longo da competição.
O primeiro tempo foi equilibrado, com o Brasil controlando a posse de bola e a Alemanha buscando contra-ataques. A decisão veio no segundo tempo. Aos 22 minutos, Rivaldo finalizou de fora da área, e Kahn, até então impecável, deu rebote. Ronaldo apareceu para completar para o gol: 1 a 0.
Doze minutos depois, Ronaldo recebeu passe de Kléberson, limpou a marcação e finalizou no canto esquerdo de Kahn: 2 a 0. O Fenômeno caiu de joelhos no gramado, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Quatro anos após o pesadelo de Paris, Ronaldo coroava a maior volta por cima da história do futebol como artilheiro da Copa, com oito gols, e o título de pentacampeão mundial. A FIFA reconheceria a campanha como uma das mais impressionantes de todos os tempos.
O legado do pentacampeonato
A conquista de 2002 consolidou o Brasil como o único pentacampeão da história das Copas, feito que até hoje nenhuma outra seleção alcançou. A campanha reafirmou a capacidade do futebol brasileiro de se reinventar — aquela não era uma seleção do “futebol arte” clássico, mas uma equipe que combinava talento individual com pragmatismo tático sob a liderança firme de Felipão.
Os dados dos jogadores daquela campanha podem ser consultados em plataformas como o Transfermarkt, que documenta as carreiras de Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e todos os outros heróis de Yokohama. A CBF guarda com orgulho a memória daquele time, que representa o último capítulo de glória máxima da Seleção em Copas do Mundo.
Para a seleção feminina, que constrói seu próprio legado, a história de 2002 é prova de que superação pode transformar adversidades em conquistas. Com a Copa de 2026 no horizonte, a torcida brasileira sonha com a sexta estrela — e a memória de Ronaldo em Yokohama continua sendo o lembrete mais poderoso de que, no futebol, a redenção é sempre possível.