Tática

O papel do lateral moderno na Seleção Brasileira de Dorival

Como o lateral moderno evoluiu no futebol e de que forma Dorival Júnior utiliza essa posição na Seleção Brasileira rumo à Copa 2026.

Rafael Santos 5 min de leitura
Ilustração editorial sobre futebol brasileiro
Imagem: IA generativa (Gemini 2.5 Flash) 🤖 IA

Poucas posições no futebol passaram por uma transformação tão radical nas últimas décadas quanto a de lateral. O jogador que antes era conhecido essencialmente por subir e cruzar — numa função quase exclusivamente de corredor — hoje acumula responsabilidades que vão da construção de jogadas no meio-campo à organização defensiva como terceiro zagueiro. Na Seleção Brasileira de Dorival Júnior, essa evolução é visível e pode definir o sucesso do Brasil na Copa do Mundo de 2026.

A tradição brasileira na posição

O Brasil sempre foi uma potência na formação de laterais. Nomes como Cafu, Roberto Carlos, Mauro Galvão e Branco marcaram época com estilos diferentes, mas todos compartilhavam uma característica: a vocação ofensiva. A história das Copas do Mundo está repleta de momentos protagonizados por laterais brasileiros — do gol olímpico de Roberto Carlos contra a França em 1997 às subidas incansáveis de Cafu na conquista do pentacampeonato em 2002.

Essa tradição criou uma expectativa cultural que vai além da tática. Para o torcedor brasileiro, o lateral precisa atacar, precisa chegar na linha de fundo, precisa participar dos gols. Essa identidade, no entanto, vem sendo desafiada pela evolução do futebol, que hoje exige dos laterais um conjunto de habilidades muito mais amplo e sofisticado.

O conceito do lateral invertido

A grande revolução tática dos últimos anos na posição foi a popularização do lateral invertido, conceito aprimorado por Pep Guardiola no Manchester City. Nesse modelo, o lateral não sobe pela linha de fundo: em vez disso, ele corta para dentro do campo, ocupando espaços no meio-campo central e funcionando como um volante adicional durante a fase de construção.

O objetivo é claro: criar superioridade numérica no centro do campo, facilitando a circulação de bola e dificultando a marcação adversária. Quando o lateral direito, por exemplo, migra para o meio-campo, o ponta daquele lado ganha toda a faixa lateral para explorar com liberdade, enquanto a equipe mantém compactação defensiva no eixo central.

Segundo a FIFA, a utilização de laterais invertidos aumentou 60% entre os clubes de elite europeu desde 2020. Na Copa do Mundo de 2022, seleções como Inglaterra, Espanha e Marrocos utilizaram variações desse conceito com sucesso, demonstrando que a tendência já havia chegado ao futebol de seleções.

Danilo e a versatilidade como patrimônio

Danilo, capitão e líder do grupo de Dorival Júnior, representa como poucos a polivalência que o futebol moderno exige. Ao longo de sua carreira em clubes como Real Madrid, Manchester City e Juventus, Danilo acumulou experiência em praticamente todas as posições da defesa e do meio-campo. Sua capacidade de atuar como lateral direito, lateral esquerdo, zagueiro e até volante o torna uma peça estratégica inestimável.

Na Seleção Brasileira, Danilo frequentemente exerce a função de lateral invertido pela direita. Em vez de buscar a linha de fundo, ele fecha para o centro e forma um triângulo com os volantes, garantindo equilíbrio defensivo enquanto os jogadores mais criativos da equipe se projetam ao ataque. Nos jogos das Eliminatórias, Danilo registrou média de 52 passes por partida, número que reflete sua importância na construção de jogadas, conforme dados do Transfermarkt.

No entanto, a idade de Danilo levanta questionamentos sobre sua condição física para suportar o ritmo de uma Copa do Mundo com jogos frequentes. Dorival precisará gerenciar cuidadosamente a utilização do capitão e ter alternativas prontas para substituí-lo quando necessário.

As opções de Dorival para o setor

O elenco da Seleção oferece alternativas distintas para as laterais. Pela direita, além de Danilo, Vanderson do Monaco representa o perfil mais tradicional: veloz, vertical e incansável nas subidas pelo corredor. Yan Couto, do Borussia Dortmund, é outra opção que combina capacidade ofensiva com leitura tática apurada.

Pela esquerda, Guilherme Arana e Wendell disputam a posição. Arana oferece mais qualidade no cruzamento e chegada ao ataque, enquanto Wendell traz maior consistência defensiva e experiência no futebol europeu. A escolha entre eles dependerá do perfil de adversário em cada jogo da Copa do Mundo de 2026.

O que chama atenção é que Dorival não parece ter um lateral esquerdo titular incontestável, diferentemente da direita onde Danilo, apesar da concorrência, mantém a preferência. Essa indefinição pode ser vista como vulnerabilidade ou como flexibilidade tática — a capacidade de adaptar o perfil do lateral ao contexto de cada partida.

A interação entre laterais e pontas

Um dos aspectos mais fascinantes da análise tática do Brasil de Dorival é a relação entre os laterais e os atacantes de velocidade. Quando o lateral direito fecha para o centro, Raphinha ou Rodrygo ganham amplitude total pelo corredor direito, podendo receber a bola em espaço e atacar o adversário em situações de um contra um.

Do lado esquerdo, a dinâmica com Vinicius Jr é ainda mais complexa. Vini tende a cortar para dentro, buscando o centro da área para finalizar. Isso exige um lateral esquerdo que consiga projetar-se pelo corredor e oferecer largura, compensando o movimento inverso do atacante. A complementaridade entre o lateral e o ponta, nesse caso, precisa ser quase simbiótica.

Nos bastidores da preparação da Seleção, essa relação é trabalhada diariamente nos treinos. A sincronização de movimentos entre lateral e ponta não pode depender de improviso: precisa ser automatizada para funcionar sob a pressão de uma Copa do Mundo, onde cada erro pode custar a eliminação.

Comparação com rivais continentais

Na América do Sul, a Argentina de Lionel Scaloni utiliza seus laterais de forma diferente. Molina, pela direita, exerce função mais convencional de subida e cruzamento, enquanto Acuña, pela esquerda, alterna entre projeção ofensiva e contenção. O modelo argentino prioriza a solidez defensiva e confia menos nos laterais como construtores de jogo.

O Uruguai de Bielsa, por outro lado, explora os laterais de maneira agressiva, exigindo que ambos avancem simultaneamente — um risco calculado que só funciona com meio-campistas de enorme capacidade de cobertura. Essa abordagem ousada resultou tanto em goleadas aplicadas quanto em derrotas surpreendentes nas Eliminatórias, conforme registrado pela CONMEBOL.

O futuro da posição na Seleção

A posição de lateral no futebol brasileiro vive um momento de transição geracional. A nova geração de jogadores chega com formação tática mais completa, acostumada a executar funções múltiplas dentro de uma mesma partida. Jogadores como Vanderson e Yan Couto são exemplos de laterais que cresceram já inseridos nessa nova cultura tática.

Para a Copa de 2026, a escolha dos laterais será uma das decisões mais importantes de Dorival Júnior. Mais do que escolher os melhores jogadores, o treinador precisará definir qual modelo tático adotar e, a partir disso, selecionar os laterais que melhor se encaixam. A Seleção Brasileira tem opções para jogar com laterais invertidos, laterais ofensivos tradicionais ou até um sistema assimétrico que combine ambos os perfis.

A história do futebol brasileiro foi escrita, em grande parte, pelos pés de laterais geniais. Na Copa de 2026, a posição será tão determinante quanto sempre foi — mas o papel a ser desempenhado será radicalmente diferente do que Cafu e Roberto Carlos executaram em seu tempo. O lateral moderno é, cada vez mais, o jogador mais completo do futebol.